Tobias 2

A Nova Vulgata não revisa a tradução de São Jerônimo deste livro, como faz nos outros: imprime no lugar dela uma tradução latina mais antiga, de modo que um mesmo número de capítulo e versículo designa um texto diferente nela e na Vulgata Clementina.
Zelo de Tobias em sepultura os mortos.
Depois disto, num dia de festa do Senhor, estando preparado um grande banquete em casa de Tobias, disse este a seu filho: Vai e traz aqui alguns da nossa tribo, que sejam tementes a Deus, para comerem connosco. Tendo ele ido, na volta contou ao pai que um dos filhos de Israel jazia degolado na rua. Imediatamente Tobias, levantando-se da mesa, sem nada haver comido, foi junto do cadáver, tomou-o e levou-o secretamente para sua casa, a fim de, depois do sol posto, o sepultar com precaução. Depois de ter escondido o cadáver, pôs-se a comer com pranto e tremor, recordando-se do que o Senhor tinha dito por meio do profeta Amós: Os vossos dias de festa converter-se-ão em lamentação e pranto. Após o sol posto, saiu e sepultou-o. Todos os seus vizinhos o arguiam, dizendo: Já por este motivo te mandaram matar; mal escapaste da sentença de morte, logo recomeças a sepultar os mortos? Porém Tobias, temendo mais a Deus do que ao rei, levava os corpos dos que tinham sido mortos, escondia-os em sua casa e sepultava-os pelo meio da noite.
Cegueira e paciência de Tobias.
Sucedeu um dia que, cansado de enterrar mortos, ao chegar a sua casa deitou-se junto duma parede e adormeceu. Enquanto dormia, caiu-lhe dum ninho de andorinhas um pouco de esterco quente sobre os olhos, e ficou cego. O Senhor permitiu que lhe acontecesse esta prova, para que a sua paciência servisse assim de exemplo aos vindouros, como a do santo Job. Como havia sempre temido a Deus, desde a sua infância, e guardado os seus mandamentos, não se entristeceu contra Deus, por lhe ter acontecido a desgraça da cegueira. Permaneceu firme no temor de Deus, dando-lhe graças todos os dias da sua vida. Assim como os reis (ou poderosos) insultavam o bem-aventurado Job, assim os parentes e amigos de Tobias escarneciam da sua conduta, dizendo: Onde está a tua esperança, pela qual davas esmolas e sepultavas os mortos? Porém Tobias os repreendia; Não faleis assim, porque nós somos filhos dos santos (patriarcas) e esperamos aquela vida que Deus hã-de dar aos que nunca deixam de confiar nele.
Cólera da mulher de Tobias.
Ana, sua mulher, ia todos os dias tecer, e do trabalho das suas mãos trazia o que podia ganhar para viver. Assim aconteceu que, tendo recebido um cabrito, levou-o para casa seu marido, tendo-o ouvido dar balidos, disse: Vede que não seja furtado; restituí-o a seus donos, porque a nós não nos é lícito comer nem tocar coisa alguma furtada. A isto respondeu-lhe sua mulher com ira: Bem claro está que as tuas esperanças são vãs! Agora mostram o que valem as tuas esmolas! Com estas e outras palavras semelhantes o insultava.

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